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Entre sente-se e fique a vontade... o café é fraco, mas a conversa é boa!

31/05/2008

Café fraco.



Vinte de dezembro de 2008 e estava quente e abafado. Caminhava distraída pela calçada larga da avenida movimentada, sem olhar para os lados mantendo a atenção em si mesmo, nos seus pensamentos. O conteúdo do devaneio a deixava com a boca seca e o ranger da porta de um bar chamou sua atenção.

Entrou olhando para baixo, o olhar dos eventuais curiosos feria sua vergonha. Sentou-se na cadeira do balcão e pediu um café. O café estava quente e fumegante, a xícara farta de boca larga mostrava o liquido escuro onde ela podia ver sua face. Quem é você? - Perguntava para o reflexo. - O que você fez? O silêncio das vozes na sua mente denunciava a resposta.

Ela não era bela, era comum em todos os aspectos, não chamava a atenção e talvez fosse isso que mais a feria. A sua vergonha era ser comum, quando exatamente o que ela queria era ser única. Talvez, seus pensamentos a torturavam dessa maneira devido os acontecimentos regressos. Estava desesperada, era essa a única verdade. Em um mês perdeu tudo, companheiro, emprego e corria um sério risco de ser despejada em breve.

Por que diabos ela foi sair de casa? Para perseguir seus sonhos.- Repetiu para si mesma.

A sua vergonha era não suportar o seu fracasso, ter que voltar atrás em tudo que conquistou até agora, Mas o que você conquistou? – Olhou em volta. As pessoas viviam como se não existisse mais ninguém além delas, mergulhadas em sua própria existência. As pessoas se suicidam a todo instante no mundo e ninguém se importa!- Quando você fica sabendo é por que um amigo do cunhado da prima de segundo grau contou a alguém que você não sabe por que contou a você, como se fosse à coisa mais importante pra você saber naquele instante. Ninguém iria sentir sua falta, poderia ela acabar com sua vida e com aquele sofrimento. Imaginou-se entrando em seu apê, tomaria um grande gole de água, depois ficaria horas debaixo do chuveiro quente para lavar a alma, colocaria sua melhor lingerie e uma camisola confortável, diluiria no leite uma dose cavalar de veneno para ratos que um vizinho lhe arrumou e beberia até o último gole. A estricnina, segundo o que sabia, tinha efeito rápido e devastador, morreria de forma intensa e agonizante, pois a toxina causa hemorragia e fortes convulsões, seria trágico e cruel. Mas ela sabia que ninguém ia se importar com nada, que seria só mais uma que não teve força de vontade suficiente para suportar a vida.

O café esfriava, olhou mais uma vez sua imagem refletida que se distorceu quando tocou a xícara. Sorveu todo o liquido, imaginando ser o seu elixir libertador, teve vontade de vomitar, se engasgou e tossiu, mas forçou o liquido goela dentro. Que café fraco! - De súbito lembrou-se que o único níquel que lhe restara deveria ela usar para tirar xérox de seu currículo, olhou o ambiente que lotava com a proximidade do horário de almoço, percebeu a distração do balconista e se levantou saindo em passos lépidos do estabelecimento. Precisava de um emprego ou ia acabar debaixo da ponte, afinal esse negócio de suicídio é pra quem está muito desesperado ou pra quem tem muita coragem e ela não tinha nenhum o suficiente.

(foto: Bryan Nealy)

28/05/2008

Saudosa saudade...



As luzes do apartamento estavam apagadas e apenas a luz vacilante de um abajur velho sobre uma escrivaninha iluminava o cubículo de paredes brancas, dando um ar retro a toda bagunça no cômodo. A cama nua, no chão, com lençóis e travesseiros amassados como da última vez que se levantou, um armário sem portas que exibia um espelho daqueles de borda alaranjada quebrado, alguns livros e um cabideiro com um chapéu pendurado que parecia observar tudo com um ar de desaprovação.

Cansado pelo dia de trabalho intenso, levantou-se e se dirigiu até a janela daquele décimo quarto andar.

“Você nunca dorme?” – seu pensamento fluiu enquanto via as luzes da cidade e o intenso movimento na rua em plena madrugada. Uma brisa fria tocava seu rosto e anunciava uma manhã gelada. Arrepiou, esfregou as mãos contra os braços poderosos de estivador, fechou a janela e despiu-se. Deitou-se na cama fina sentindo a frieza do chão, mas antes mesmo de pensar em reclamar pôde sentir o cheiro de sua amada no travesseiro e sorriu.

Seu corpo e mente padeciam do cansaço, mas sua alma estava inteira e revigorada pela lembrança dela. “Ah! Minha nega!” – suspirou antes de finalmente adormecer.