Ela caminhava em passos alegres pela calçada, estava frio e a brisa era pesada e úmida, mas isso não inibia seu charme pessoal, ela não se limitava a vestir as pesadas roupas de frio comuns da região. Fazia sua própria moda, botas de cano alto, meias grossas, uma saia um pouco abaixo dos joelhos, um casaco e um xale charmoso que ganhara da sua avó, tudo em tons sobre tons de vermelho. Era linda, sua pele macia e alva, quase virgem, os cabelos eram longos , muito negros e levemente ondulados, olhos de um inebriante verde claro e um olhar enigmático como de um felino.
Tinha acabado de sair do trabalho, uma afinadora de instrumentos muito habilidosa, fora requisitada para trabalhar na sinfônica local. O seu sucesso tinha um segredo que ela guardava a sete chaves, a sinestesia, uma habilidade sobrenatural, em que o possuidor consegue ter uma segunda percepção sensorial com um único estímulo. Ela conseguia sentir o gosto dos sons, ou os sons causavam-lhe sensações no paladar, os acordes médios quando afinados, eram doces como mel, os agudos era cítricos e os graves levemente salgados. Mas não sabia ainda os limites da sua capacidade, em outras épocas em ocasiões de nervosismo ou stress pode ouvir seu olfato, ou sentir o sabor da dor. Ocasião essa que lhe custou um namorado, eles iriam ter sua primeira noite amor, ela ainda virgem estava muito nervosa, no calor das carícias os dois nus sobre a cama, debaixo dos lençóis, ele apenas a tocou intimamente e o que deveria lhe trazer um prazer celestial, se revelou uma dor escruciante, que se transformou num terrível gosto de fel, o asco a fez vomitar sobre o pretendente. Desde então não teve outro namorado.
Já eram altas horas da madrugada, morava a poucas quadras do auditório onde a orquestra ensaiava, estava acostuma com aquele caminho e com o horário, por isso caminha despreocupada aproveitando a brisa da madrugada e o sabor que silêncio lhe causava. Tinha avançado duas quadras na direção da sua casa, quando começou a sentir um cheiro leve de borracha queimada que a retirou do seu devaneio. Quando voltou a si, percebeu que o cheiro, na realidade, era o som de passos pesados. Olhou para trás, um homem alto e visivelmente forte, vestido com trajes de couro típico dos delinqüentes da gangue que dominava a região. Ela sabia que não podia brincar com esses caras, seu coração acelerou e sua respiração começava a aumentar, precisava ter certeza de que estava sendo seguida e acelerou um pouco o passo. Mas em vez de ouvir os passos do homem, o cheiro de borracha queimada empestou o seu nariz, fazendo-a lacrimejar. O nervosismo estava a fazendo perder o controle sobre os seus sentidos e ela se amaldiçoou por isso. Mas sabia que devia correr e o fez. Sabia que ele estava em seu encalço e correu por uma quadra inteira, o cheiro de borracha queimada não a deixava respirar, não conseguia sequer gritar, o seu fôlego falhou e ela tropeçou, vindo a se desequilibrar e quase não caiu graças a uma lixeira que ela derrubou ao se apoiar. Com tanto barulho, ele deve ter ido embora! – Antes mesmo de completar seu pensamento foi habilmente sufocada pelas mãos enormes do seu perseguidor, ele a agarrou por trás e a levou para um beco próximo. O cheiro de borracha havia passado, mas ela ainda lutava para recuperar o fôlego, o que ficava bem difícil com ele segurando sua boca pra ela não gritar. O cheiro do homem a fazia ouvir distorções sonoras dignas de um concerto eletroacústico, o nervosismo fez a sua habilidade sinestésica pirar. Ele a jogou com força no chão, no fundo do beco sujo fazendo sua cabeça se chocar contra a parede, sua vista escureceu e ela gemeu. Seu perseguidor hesitou por um instante, mas atirou-se com mais ímpeto sobre a moça, disposto a cumprir seu vil objetivo. Sua respiração estava ofegante, ela ouvia o desafinado cheiro de colônia barata, o gosto azedo de lixeira de restaurante do lugar onde tinha sido jogada. Ele caiu sobre ela e a colocou de bruços, puxou os seus cabelos com força, esfregando seu rosto contra o chão úmido e frio. Ela gemia com a respiração entre cortada cada vez que ele agia com mais violência, uma febre dominava seu corpo, podia senti-la nos cabelos que ele puxava ao ponto de quase arranca-los e no seu rosto arranhado. Ele desabotoou sua saia e a arrancou rasgando-a, por debaixo das roupas grossas estava oculto um corpo esbelto e bem cuidado, o toque da pele macia das coxas dela o fez sorrir, num único puxão rasgou a calcinha de algodão que ela usava, fazendo-a tremer. Ela estava nua e indefesa, mas ele queria mais e a virou encarando-a face a face.
A despeito de tudo que acontecia naquele beco, sua mente era um turbilhão, quando sua lingerie foi arrancada num puxão tão violento que cortou a delicada pele da sua virilha, sentiu um choque violento que a teria feito encolher se não estivesse presa. Um calor febril queimava-lhe o ventre, o que fez sua pele corar e ela soltar um sonoro gemido. Quando a virou, ela pode ver a face do seu agressor, não era horrendo, mas sua expressão sádica dava-lhe um aspecto tétrico. Ele a olhava nos olhos e exibia uma faca de aço reluzente e tão aguda como um espeto. Eu quero ouvir você gritar, sua vadia! – vociferou estapeando-a com as costas das mãos. O choque esmagou a sua bochecha contra seus dentes, fazendo-a sangrar, o sabor do sangue era a combinação perfeita de um quarteto de cordas que silenciou todos os outros sons que ela ouvia. Ela gemeu mais uma vez, não conseguindo conter um sorriso sádico. Ele estava absorto pelo ódio, pego mais uma vez pela loucura da situação que se encontrava. Não havia mais prazer naquilo, mas ela ia pagar por isso. Você vai gritar, vou fazer você sangrar até morrer, sua vaca! – Sentiu o aço frio, penetrar até o cabo no seu ombro, o choque foi tão intenso que seu agressor que estava sobre sua cintura, foi jogado de lado. Sentiu o gozo quente escorrer-lhe as coxas, o orgasmo fora tão intenso que não conseguia controlar os movimentos das próprias pernas, tentou com algum sucesso sentar, seu agressor a olhava boquiaberto. Com a respiração ofegante, resolveu que precisava tirar aquele punhal do seu ombro, quando tocou o cabo, outro choque a fez gozar mais uma vez, obrigando-a deitar na tentativa de se livrar do aço, a sinestesia havia transformado dor, em ardor e prazer. Na delicada operação que lhe causava sensações intensas e torturantes ela não se contentou e torceu o punhal levemente, a ação a fez deitar exausta e gargalhar prazerosamente. O seu algoz já distanciava-se aos tropeços, deixando cada vez mais distante o cheiro de borracha dos seus passos.

