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Entre sente-se e fique a vontade... o café é fraco, mas a conversa é boa!

11/08/2008

Elas




Acordou numa manhã de quarta feira achando que ia morrer. A sensação atordoava sua mente e apertava seu coração. Era um homem sozinho, morando num casebre de taipa no fundo da chácara de um irmão mais novo. Analfabeto de pai e mãe, sequer contar deu na telha de aprender, foi à doença dizia a todos que perguntavam, elas nunca deram sossego. “Elas”, por que apesar de não saber ler, escrever e nem contar, sabia nome de doenças que doutor algum das redondezas sequer imaginava existir. Mas ele não inventava não, sabia inclusive sintomas e tratamentos, era mais uma dessas incógnitas inexplicáveis da natureza. A cada semana de sua vida elas lhe acompanharam revezando-se, a gripe, pneumonia, rubéola, anemia, caxumba, sarampo, sífilis, faringite e outras tantas, suas companheiras de uma vida toda.

Na folga do seu colchão de palha duro, que já havia lhe rendido uma lordose, lembrou-se de uma consulta com o médico do postinho naquela manhã, sorriu interiormente, o que fez que a gota latejasse timidamente nas juntas dos dedinhos do pé, do direito, por que do esquerdo sofria apenas de uma trombose leve, ainda.

O Doutor, homem estudado de fala bonita e gestos gentis, sempre trazia algo novo das suas viagens a capital, quem sabe não tenha trazido da última vez uma solução para a aflição deste danado. Levantou-se procurando o chinelo de dedo gasto, que de tanto fazê-lo pisar em falso lhe causou uma bursite nas juntas da bacia. Não lavou o rosto, nem trocou de roupa, afinal doente que é doente tem cara inchada de quem acabou de acordar e também não tem ânimo para se lavar. Não deu a tradicional mijada matinal, por que poderia quem sabe ganhar um exame de urina, mas se pedissem exame de fezes teriam que esperar, por que era contra cagar logo pela manhã.

Ao chegar ao posto, logo foi reconhecido, era quase uma celebridade na pacata cidadezinha. A secretária lhe atendeu um pouco contrariada, fez as checagens rotineiras e o encaminhou para ser atendido pelo Doutor. O Doutor, homem de muita paciência pediu para que sentasse. E então meu amigo, o que tens essa semana? – Indagou bastante curioso. Ah Doto! Hoje eu me alevantei, crenti que ia bate as bota! Mas a crendice passô rápidim, modiquê as gota dos pé direito ta atacando traveis.- O Doutor analisou seu paciente e sorriu discretamente achando graça daquela situação. Sensação de morte então hã? – pediu para que deitasse na cama do pequeno e abafado consultório, fez o exames de praxe, afinal por que se assim não fosse, conhecedor dos procedimentos como era seu paciente de certo que lhe chamaria a atenção, dizendo que este ou aquele procedimento não foi feito. Eu sei o que você tem! É algo que nem você conhece. – revelou sinistramente e os olhos do doente marejaram de emoção. Hipocondria! – esperou um instante para ver sua reação. É doença grave viu, pra vida toda, você nem precisa mais dessas outras pra te fazer companhia. – olhou outra vez para o paciente, visivelmente emocionado. Mas cê tem certeza doto?! Óia que essa é nova pra eu memo, mas qual é o tratamento? – o Doutor preparou o desfecho. Vai se consultar toda a semana com uma médica nova que chega hoje! E sua primeira visita é amanhã à tarde. É uma psicóloga. – o paciente quase teve um treco. Levantou feliz da vida. Muito agredicido doto! Manhâ de tardezinha eu to aqui pra fala com a tar pscicorga! – saiu em passos alegres, meio mancos, para fora do consultório até a saída do postinho, podia sentir seu coração batendo forte e acelerado Hipo-con-dria, Hipo-con-dria, Hipo-con-dria, Hipo-con-dria, a luz da manhã entrava livre pela porta de entrada do prédio, mas a única coisa que ele viu foi sua vista escurecer, seguida de uma dor aguda no peito. O doente estatelou duro no chão como uma árvore derrubada a machado, o Doutor e a enfermeira tentaram tudo o que podiam, mas o diagnóstico foi fatal, Óbito por Falência Cardíaca Fulminante.

09/06/2008

O Sabor da Dor




Ela caminhava em passos alegres pela calçada, estava frio e a brisa era pesada e úmida, mas isso não inibia seu charme pessoal, ela não se limitava a vestir as pesadas roupas de frio comuns da região. Fazia sua própria moda, botas de cano alto, meias grossas, uma saia um pouco abaixo dos joelhos, um casaco e um xale charmoso que ganhara da sua avó, tudo em tons sobre tons de vermelho. Era linda, sua pele macia e alva, quase virgem, os cabelos eram longos , muito negros e levemente ondulados, olhos de um inebriante verde claro e um olhar enigmático como de um felino.

Tinha acabado de sair do trabalho, uma afinadora de instrumentos muito habilidosa, fora requisitada para trabalhar na sinfônica local. O seu sucesso tinha um segredo que ela guardava a sete chaves, a sinestesia, uma habilidade sobrenatural, em que o possuidor consegue ter uma segunda percepção sensorial com um único estímulo. Ela conseguia sentir o gosto dos sons, ou os sons causavam-lhe sensações no paladar, os acordes médios quando afinados, eram doces como mel, os agudos era cítricos e os graves levemente salgados. Mas não sabia ainda os limites da sua capacidade, em outras épocas em ocasiões de nervosismo ou stress pode ouvir seu olfato, ou sentir o sabor da dor. Ocasião essa que lhe custou um namorado, eles iriam ter sua primeira noite amor, ela ainda virgem estava muito nervosa, no calor das carícias os dois nus sobre a cama, debaixo dos lençóis, ele apenas a tocou intimamente e o que deveria lhe trazer um prazer celestial, se revelou uma dor escruciante, que se transformou num terrível gosto de fel, o asco a fez vomitar sobre o pretendente. Desde então não teve outro namorado.

Já eram altas horas da madrugada, morava a poucas quadras do auditório onde a orquestra ensaiava, estava acostuma com aquele caminho e com o horário, por isso caminha despreocupada aproveitando a brisa da madrugada e o sabor que silêncio lhe causava. Tinha avançado duas quadras na direção da sua casa, quando começou a sentir um cheiro leve de borracha queimada que a retirou do seu devaneio. Quando voltou a si, percebeu que o cheiro, na realidade, era o som de passos pesados. Olhou para trás, um homem alto e visivelmente forte, vestido com trajes de couro típico dos delinqüentes da gangue que dominava a região. Ela sabia que não podia brincar com esses caras, seu coração acelerou e sua respiração começava a aumentar, precisava ter certeza de que estava sendo seguida e acelerou um pouco o passo. Mas em vez de ouvir os passos do homem, o cheiro de borracha queimada empestou o seu nariz, fazendo-a lacrimejar. O nervosismo estava a fazendo perder o controle sobre os seus sentidos e ela se amaldiçoou por isso. Mas sabia que devia correr e o fez. Sabia que ele estava em seu encalço e correu por uma quadra inteira, o cheiro de borracha queimada não a deixava respirar, não conseguia sequer gritar, o seu fôlego falhou e ela tropeçou, vindo a se desequilibrar e quase não caiu graças a uma lixeira que ela derrubou ao se apoiar. Com tanto barulho, ele deve ter ido embora! – Antes mesmo de completar seu pensamento foi habilmente sufocada pelas mãos enormes do seu perseguidor, ele a agarrou por trás e a levou para um beco próximo. O cheiro de borracha havia passado, mas ela ainda lutava para recuperar o fôlego, o que ficava bem difícil com ele segurando sua boca pra ela não gritar. O cheiro do homem a fazia ouvir distorções sonoras dignas de um concerto eletroacústico, o nervosismo fez a sua habilidade sinestésica pirar. Ele a jogou com força no chão, no fundo do beco sujo fazendo sua cabeça se chocar contra a parede, sua vista escureceu e ela gemeu. Seu perseguidor hesitou por um instante, mas atirou-se com mais ímpeto sobre a moça, disposto a cumprir seu vil objetivo. Sua respiração estava ofegante, ela ouvia o desafinado cheiro de colônia barata, o gosto azedo de lixeira de restaurante do lugar onde tinha sido jogada. Ele caiu sobre ela e a colocou de bruços, puxou os seus cabelos com força, esfregando seu rosto contra o chão úmido e frio. Ela gemia com a respiração entre cortada cada vez que ele agia com mais violência, uma febre dominava seu corpo, podia senti-la nos cabelos que ele puxava ao ponto de quase arranca-los e no seu rosto arranhado. Ele desabotoou sua saia e a arrancou rasgando-a, por debaixo das roupas grossas estava oculto um corpo esbelto e bem cuidado, o toque da pele macia das coxas dela o fez sorrir, num único puxão rasgou a calcinha de algodão que ela usava, fazendo-a tremer. Ela estava nua e indefesa, mas ele queria mais e a virou encarando-a face a face.

A despeito de tudo que acontecia naquele beco, sua mente era um turbilhão, quando sua lingerie foi arrancada num puxão tão violento que cortou a delicada pele da sua virilha, sentiu um choque violento que a teria feito encolher se não estivesse presa. Um calor febril queimava-lhe o ventre, o que fez sua pele corar e ela soltar um sonoro gemido. Quando a virou, ela pode ver a face do seu agressor, não era horrendo, mas sua expressão sádica dava-lhe um aspecto tétrico. Ele a olhava nos olhos e exibia uma faca de aço reluzente e tão aguda como um espeto. Eu quero ouvir você gritar, sua vadia! – vociferou estapeando-a com as costas das mãos. O choque esmagou a sua bochecha contra seus dentes, fazendo-a sangrar, o sabor do sangue era a combinação perfeita de um quarteto de cordas que silenciou todos os outros sons que ela ouvia. Ela gemeu mais uma vez, não conseguindo conter um sorriso sádico. Ele estava absorto pelo ódio, pego mais uma vez pela loucura da situação que se encontrava. Não havia mais prazer naquilo, mas ela ia pagar por isso. Você vai gritar, vou fazer você sangrar até morrer, sua vaca! – Sentiu o aço frio, penetrar até o cabo no seu ombro, o choque foi tão intenso que seu agressor que estava sobre sua cintura, foi jogado de lado. Sentiu o gozo quente escorrer-lhe as coxas, o orgasmo fora tão intenso que não conseguia controlar os movimentos das próprias pernas, tentou com algum sucesso sentar, seu agressor a olhava boquiaberto. Com a respiração ofegante, resolveu que precisava tirar aquele punhal do seu ombro, quando tocou o cabo, outro choque a fez gozar mais uma vez, obrigando-a deitar na tentativa de se livrar do aço, a sinestesia havia transformado dor, em ardor e prazer. Na delicada operação que lhe causava sensações intensas e torturantes ela não se contentou e torceu o punhal levemente, a ação a fez deitar exausta e gargalhar prazerosamente. O seu algoz já distanciava-se aos tropeços, deixando cada vez mais distante o cheiro de borracha dos seus passos.

31/05/2008

Café fraco.



Vinte de dezembro de 2008 e estava quente e abafado. Caminhava distraída pela calçada larga da avenida movimentada, sem olhar para os lados mantendo a atenção em si mesmo, nos seus pensamentos. O conteúdo do devaneio a deixava com a boca seca e o ranger da porta de um bar chamou sua atenção.

Entrou olhando para baixo, o olhar dos eventuais curiosos feria sua vergonha. Sentou-se na cadeira do balcão e pediu um café. O café estava quente e fumegante, a xícara farta de boca larga mostrava o liquido escuro onde ela podia ver sua face. Quem é você? - Perguntava para o reflexo. - O que você fez? O silêncio das vozes na sua mente denunciava a resposta.

Ela não era bela, era comum em todos os aspectos, não chamava a atenção e talvez fosse isso que mais a feria. A sua vergonha era ser comum, quando exatamente o que ela queria era ser única. Talvez, seus pensamentos a torturavam dessa maneira devido os acontecimentos regressos. Estava desesperada, era essa a única verdade. Em um mês perdeu tudo, companheiro, emprego e corria um sério risco de ser despejada em breve.

Por que diabos ela foi sair de casa? Para perseguir seus sonhos.- Repetiu para si mesma.

A sua vergonha era não suportar o seu fracasso, ter que voltar atrás em tudo que conquistou até agora, Mas o que você conquistou? – Olhou em volta. As pessoas viviam como se não existisse mais ninguém além delas, mergulhadas em sua própria existência. As pessoas se suicidam a todo instante no mundo e ninguém se importa!- Quando você fica sabendo é por que um amigo do cunhado da prima de segundo grau contou a alguém que você não sabe por que contou a você, como se fosse à coisa mais importante pra você saber naquele instante. Ninguém iria sentir sua falta, poderia ela acabar com sua vida e com aquele sofrimento. Imaginou-se entrando em seu apê, tomaria um grande gole de água, depois ficaria horas debaixo do chuveiro quente para lavar a alma, colocaria sua melhor lingerie e uma camisola confortável, diluiria no leite uma dose cavalar de veneno para ratos que um vizinho lhe arrumou e beberia até o último gole. A estricnina, segundo o que sabia, tinha efeito rápido e devastador, morreria de forma intensa e agonizante, pois a toxina causa hemorragia e fortes convulsões, seria trágico e cruel. Mas ela sabia que ninguém ia se importar com nada, que seria só mais uma que não teve força de vontade suficiente para suportar a vida.

O café esfriava, olhou mais uma vez sua imagem refletida que se distorceu quando tocou a xícara. Sorveu todo o liquido, imaginando ser o seu elixir libertador, teve vontade de vomitar, se engasgou e tossiu, mas forçou o liquido goela dentro. Que café fraco! - De súbito lembrou-se que o único níquel que lhe restara deveria ela usar para tirar xérox de seu currículo, olhou o ambiente que lotava com a proximidade do horário de almoço, percebeu a distração do balconista e se levantou saindo em passos lépidos do estabelecimento. Precisava de um emprego ou ia acabar debaixo da ponte, afinal esse negócio de suicídio é pra quem está muito desesperado ou pra quem tem muita coragem e ela não tinha nenhum o suficiente.

(foto: Bryan Nealy)

28/05/2008

Saudosa saudade...



As luzes do apartamento estavam apagadas e apenas a luz vacilante de um abajur velho sobre uma escrivaninha iluminava o cubículo de paredes brancas, dando um ar retro a toda bagunça no cômodo. A cama nua, no chão, com lençóis e travesseiros amassados como da última vez que se levantou, um armário sem portas que exibia um espelho daqueles de borda alaranjada quebrado, alguns livros e um cabideiro com um chapéu pendurado que parecia observar tudo com um ar de desaprovação.

Cansado pelo dia de trabalho intenso, levantou-se e se dirigiu até a janela daquele décimo quarto andar.

“Você nunca dorme?” – seu pensamento fluiu enquanto via as luzes da cidade e o intenso movimento na rua em plena madrugada. Uma brisa fria tocava seu rosto e anunciava uma manhã gelada. Arrepiou, esfregou as mãos contra os braços poderosos de estivador, fechou a janela e despiu-se. Deitou-se na cama fina sentindo a frieza do chão, mas antes mesmo de pensar em reclamar pôde sentir o cheiro de sua amada no travesseiro e sorriu.

Seu corpo e mente padeciam do cansaço, mas sua alma estava inteira e revigorada pela lembrança dela. “Ah! Minha nega!” – suspirou antes de finalmente adormecer.