
Acordou numa manhã de quarta feira achando que ia morrer. A sensação atordoava sua mente e apertava seu coração. Era um homem sozinho, morando num casebre de taipa no fundo da chácara de um irmão mais novo. Analfabeto de pai e mãe, sequer contar deu na telha de aprender, foi à doença dizia a todos que perguntavam, elas nunca deram sossego. “Elas”, por que apesar de não saber ler, escrever e nem contar, sabia nome de doenças que doutor algum das redondezas sequer imaginava existir. Mas ele não inventava não, sabia inclusive sintomas e tratamentos, era mais uma dessas incógnitas inexplicáveis da natureza. A cada semana de sua vida elas lhe acompanharam revezando-se, a gripe, pneumonia, rubéola, anemia, caxumba, sarampo, sífilis, faringite e outras tantas, suas companheiras de uma vida toda.
Na folga do seu colchão de palha duro, que já havia lhe rendido uma lordose, lembrou-se de uma consulta com o médico do postinho naquela manhã, sorriu interiormente, o que fez que a gota latejasse timidamente nas juntas dos dedinhos do pé, do direito, por que do esquerdo sofria apenas de uma trombose leve, ainda.
O Doutor, homem estudado de fala bonita e gestos gentis, sempre trazia algo novo das suas viagens a capital, quem sabe não tenha trazido da última vez uma solução para a aflição deste danado. Levantou-se procurando o chinelo de dedo gasto, que de tanto fazê-lo pisar em falso lhe causou uma bursite nas juntas da bacia. Não lavou o rosto, nem trocou de roupa, afinal doente que é doente tem cara inchada de quem acabou de acordar e também não tem ânimo para se lavar. Não deu a tradicional mijada matinal, por que poderia quem sabe ganhar um exame de urina, mas se pedissem exame de fezes teriam que esperar, por que era contra cagar logo pela manhã.
Ao chegar ao posto, logo foi reconhecido, era quase uma celebridade na pacata cidadezinha. A secretária lhe atendeu um pouco contrariada, fez as checagens rotineiras e o encaminhou para ser atendido pelo Doutor. O Doutor, homem de muita paciência pediu para que sentasse. E então meu amigo, o que tens essa semana? – Indagou bastante curioso. Ah Doto! Hoje eu me alevantei, crenti que ia bate as bota! Mas a crendice passô rápidim, modiquê as gota dos pé direito ta atacando traveis.- O Doutor analisou seu paciente e sorriu discretamente achando graça daquela situação. Sensação de morte então hã? – pediu para que deitasse na cama do pequeno e abafado consultório, fez o exames de praxe, afinal por que se assim não fosse, conhecedor dos procedimentos como era seu paciente de certo que lhe chamaria a atenção, dizendo que este ou aquele procedimento não foi feito. Eu sei o que você tem! É algo que nem você conhece. – revelou sinistramente e os olhos do doente marejaram de emoção. Hipocondria! – esperou um instante para ver sua reação. É doença grave viu, pra vida toda, você nem precisa mais dessas outras pra te fazer companhia. – olhou outra vez para o paciente, visivelmente emocionado. Mas cê tem certeza doto?! Óia que essa é nova pra eu memo, mas qual é o tratamento? – o Doutor preparou o desfecho. Vai se consultar toda a semana com uma médica nova que chega hoje! E sua primeira visita é amanhã à tarde. É uma psicóloga. – o paciente quase teve um treco. Levantou feliz da vida. Muito agredicido doto! Manhâ de tardezinha eu to aqui pra fala com a tar pscicorga! – saiu em passos alegres, meio mancos, para fora do consultório até a saída do postinho, podia sentir seu coração batendo forte e acelerado Hipo-con-dria, Hipo-con-dria, Hipo-con-dria, Hipo-con-dria, a luz da manhã entrava livre pela porta de entrada do prédio, mas a única coisa que ele viu foi sua vista escurecer, seguida de uma dor aguda no peito. O doente estatelou duro no chão como uma árvore derrubada a machado, o Doutor e a enfermeira tentaram tudo o que podiam, mas o diagnóstico foi fatal, Óbito por Falência Cardíaca Fulminante.



